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A Igreja da Misericórdia da Guarda à luz de documentos inéditos
A Igreja da Misericórdia da Guarda é considerada uma das mais belas de Portugal e tem sido admirada pelos mais importantes historiadores locais e nacionais. No entanto, pouco se sabe documentalmente da sua história. Em artigo da autoria de António Neves , são apresentados alguns documentos considerados inéditos sobre este templo.

A igreja é tida como sendo uma construção do tempo de D. João V, apesar de, ao que julgamos, não existir
documento que o comprove.
A tipologia da igreja e principalmente da sua fachada, lembra a de algumas igrejas da cidade de Viseu ( e mesmo do distrito ), datadas da segunda metade do século XVllI.
É possível, caso não exista documento em contrário, situar também nesta época a edificação da fachada e do corpo da Igreja da Misericórdia.
A capela-mor, sabemo-lo agora, resultou da ampliação que sofreu a "velha", durante a década de 70 do século XVIll. A 9 de Setembro de 1773 a Misericórdia ajustava a "obra
de pedraria da capela-mor e arco cruzeiro" aos mestres pedreiros José de Araújo, Domingos Fernandes e Inácio de Araújo. A capela-mor "velha" foi aumentada em profundidade,
foram rasgadas duas janelas e o arco cruzeiro foi alteado (A. D. Guarda, Notarial da Guarda, caixa n.º 45, liv. 448/14, fls. 134-138v.º).
No dizer do Dr. Carlos Marques, "a maravilha, porém, de toda esta igreja é a rica, elegante e esplendorosa obra de
talha: cinco altares, incluindo o altar-mor e a sua tribuna, com colunas de ordem compósita, conchas, anjos, grinaldas e festões floridas, folhas de acanto, palmetas, pinturas
de várias cores, e a profusão luxuosas do oiro... o Eldorado da Guarda!..." (C. M., A capela da Misericórdia da Guarda, "Correio da Beira", 2 e 16 de Julho de 1953;
infelizmente não existe na Biblioteca da Guarda o "Correio da Beira" de 9 de Julho de 1953).
Este elegante e harmonioso trabalho em talha deve-se, revelam-nos os registos notariais recolhidos no Arquivo Distrital da Guarda, ao grande escultor José da Fonseca Ribeiro.
José da Fonseca Ribeiro nasceu no Carregal do Sal (distrito de Viseu), casou em Pinhanços (Seia) onde viveu a maior parte da sua vida e onde faleceu no dia 25 de Setembro de
1815. Foi um grande mestre de riscos de altares, entalhador, escultor e arquitecto. A ele se devem, na segunda metade do século XVllI, as melhores obras de talha de toda a Beira
espalham-se pelos distritos de Viseu, Guarda e Coimbra (revista "Beira Alta", vol. LIX, n.º 1/2, págs. 159-162, Assembleia Distrital de Viseu, 2000). A História de Arte em Portugal
terá de dar a este mestre beirão o lugar que lhe é devido.
O retábulo principal foi o primeiro a ser executado por José da Fonseca Ribeiro. O retábulo antigo encontrava-se "indecente" e a 11 de Setembro de 1773 foi feita a "Escritura de
contrato, ajuste e fiança da obra da tribuna da capela-mor da Igreja da Santa Casa da Misericórdia". A Mesa da Santa Casa entregou ao mestre escultor de Pinhanços, a responsabilidade
do risco e do entalhamento do novo retábulo, pelo elevado preço de um conto de réis (A. D. Guarda, Notarial da Guarda, caixa n.º 45, liv. 448/14, fls. 139-144v.º).
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| Pormenor da parte superior do altar | Pormenor do sacrário |
Os dois altares colaterais ao arco cruzeiro, apesar de sobre eles não termos encontrado documentação, é possível que tenham sido entalhados em 1789, data em que José da Fonseca
Ribeiro era dado como "assistente" na cidade da Guarda.
Os outros dois altares, laterais, foram ajustados a 28 de Fevereiro de 1798 por "Escritura de contrato que faz José da Fonseca Ribeiro, escultor do lugar de Pinhanços, desta comarca,
com o Provedor e mais irmãos ( ...) da Santa Casa da Misericórdia desta cidade". O escultor voltou a ser o autor do risco e do entalhamento e o custo da obra foi de 350.000 réis
(A. D. Guarda, Notarial da Guarda, caixa n.º 4, liv. 30/28, fls. 57-59v.º).
Assim se verifica que a obra de talha da igreja se situa bem na segunda metade do século XVllI, dentro do estilo rococó, mas já com grandes influências do neoclassicismo.
À oficina de José da Fonseca Ribeiro se deverá, igualmente, atribuir toda a obra de talha da Igreja de S. Vicente, pela afinidade que ela revela com a da Igreja da Misericórdia
e com outras obras do artista; terá sido riscada e entalhada na década de 90 do século XVIII.
Se, como cremos, não estamos a "meter a foice em seara alheia", se os documentos apresentados são de facto inéditos e se este trabalho acrescenta algo ao estudo de um monumento singular
da Guarda, gostaríamos de o dedicar a duas figuras que muito admiramos: os Profs. Drs. Adriano Vasco Rodrigues e Pinharanda Gomes.
Para saber mais...
Pode consultar a ficha do IPA referente a este monumento em
http://www.monumentos.pt/scripts/zope.pcgi/ipa/pages/ficha_ipa?nipa=0907420017