"Os Meninos da Graça"
da Igreja de Nossa Senhora da Graça

Na igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora, existem 4 curiosas estátuas que a população local baptizou como "Os meninos da Graça". Fique a conhecê-los através deste pequeno artigo.


mapa

Considerado o primeiro exemplar de arquitectura da Renascença construído no Alentejo, este singular exemplar da nossa arquitectura quinhentista é o resultado de um projecto atribuído ao traço conjunto de Nicolau Chanterene e Miguel de Arruda, inicialmente previsto para vir a ser o panteão de D. João III.

Embora a colaboração dos dois artistas possa explicar algumas incongruências de desenho, o aspecto exterior do conjunto é impressionante e singular, original na arquitectura portuguesa, em que o uso sistemático da ordem jónica, o desenho inovador do claustro e a admirável fachada, tal como os relevos da capela-mor, tiveram um impacto sem precedentes.

A fachada principal, construída na época de D. João III, ao gosto renascença, com influências italianas, deve-se provavelmente ao arquitecto Miguel de Arruda (embora alguns autores atribuam a sua autoria a Diogo de Torralva), sendo constituída por dois registos e pano único, apresentando no registo inferior, nártex com 4 colunas toscanas, suportando entablamento. Lateralmente, duas outras colunas suportam idêntico entablamento.

Igreja da Graça - Fachada principal

O registo superior apresenta frontão triangular assente em pilastras no prolongamento das inferiores; entre elas, dois grandes rosetões gomeados; ao centro janelão, sobreelevado ao nível do tímpano, enquadrado por duas colunas jónicas, adossadas; as ombreiras da janela são constituídas por duas colunas jónicas idênticas, mas de menores dimensões, suportando verga arquitravada sobreposta de vieira estilizada; no tímpano dos lados, panóplias com mascarões; rematando o janelão pequeno. O frontão apresenta óculo, com dois anjos nas vertentes e no vértice cruz de pedra sobre base rectangular.

Lateralmente, sobre as pilastras, surgem quatro imponentes personagens sentadas, representando atlantes, empunhando lanças de ferro, apoiadas em globos de fogo, localmente designadas por "Os Meninos da Graça". Constituindo exemplo único na arquitectura portuguesa da época, num claro exercício de scenographia vitruviana, estas quatro esculturas de granito, musculosas e bem modeladas, atribuídas por alguns autores à mão de Nicolau Chanterene, representam, segundo a tradição, os primeiros mártires da Inquisição queimados em Évora no ano de 1543.

Os meninos da Graça
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O nártex é espaçoso, lajeado por placas de granito e conserva vestígios da arquitrave e do arranque da abóbada primitiva, destruída por desabamento. A entrada principal, de arco pleno, com duas colunas caneladas e óculos vasados. Nos lados, rasgam-se nichos com plintos que outrora continham as imagens de Santo Agostinho e Santa Mónica.

O campanário, construído em cantaria aparelhada de granito, domina toda a fachada conventual, apresentando três olhais redondos, sendo rematado por frontão triangular e ladeado por pedestais encimados por esferas.



Cronologia do Local

O alvará de fundação do convento data de 1520, prevendo a anexação da ermida de Nossa Senhora da Graça, já existente no Séc. XV e cuja fundação remonta ao tempo de D. Sancho I. Contudo, sabe-se que em 1511 já existia no local um convento da Ordem dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho.

Em 1532, o rei D. João III visita as obras de ampliação do convento e faz doação do mesmo, como padroado perpétuo, a D. Francisco de Portugal, primeiro Conde de Vimioso. É a partir de então que se verifica a direcção das obras pelo arquitecto Miguel de Arruda dirige as obras de ampliação do edifício, sendo ainda de registar a contribuição provável de Nicolau Chanterene que trabalha na escultura das janelas do presbitério e nas quatro esculturas da frontaria da igreja, concluída em 1540.

Nos primeiros anos do século XVII ocorre a ruína da abóbada de Miguel de Arruda sendo então reerguida abóbada de canhão com lunetas de penetração, sob risco de Pero Vaz Pereira, arquitecto do Duque de Bragança, com obra dirigida por Mestre Manuel Gomes que seria ainda responsável por outros trabalhos no mosteiro. Já após a restauração o pintor eborense Francisco Botado, executa o retábulo de Santa Mónica.

Todavia os bombardeamentos de artilharia durante a guerra da Restauração viriam provocar sérios danos no edifício, tendo a igreja ficado arruinada na sequência da pilhagem efectuada pelos soldados espanhóis.

No decurso do último quartel de Seiscentos retomam-se as obras de recuperação da igreja e do convento que permitiram que estes ostentassem de novo o brilho de outrora.

Na centúria de Setecentos prosseguiram os trabalhos de remodelação e de reparação na Igreja e no convento, datando desse período a execução da nova imagem de Nossa Senhora da Graça e do respectivo trono.

Com a afirmação do liberalismo em 1834, assistiu-se à secularização do mosteiro, tendo a partir dessa data funcionado uma escola primária na igreja. Em 1858, parte do imóvel seria adaptado para aí funcionar uma fábrica de rolhas de cortiça.

Em 1884 ocorreu o desabamento da cobertura da igreja; a partir desta data foi ocupado por uma brigada de infantaria. Mais tarde, em 1955, foi decidida a adaptação do convento a Messe militar, utilização que permanece até aos nossos dias. Todavia em 1957, o monumento sofreu grande derrocada, o que agravou o seu estado de ruína, embora tenham sido então desenvolvidas obras de reparação da abóbada da igreja, que foi recoberta com tecto de madeira, de masseira, nos anos 60.


Para saber mais...

MOREIRA, Rafael, Arquitectura in Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento. Arte Antiga I, Lisboa, 1983; ;

DIAS, Pedro e MARKL, Dagoberto, A Arquitectura e a Escultura Renascença e Maneirista in História de Portugal, Dir J. Hermano Saraiva, Vol. 2, 1986;

KUBLER, George, A Arquitectura Portuguesa Chã entre as Especiarias e os Diamantes 1521 - 1706 , Lisboa, 1988;

BRANCO, Manuel, Datação e autoria da Igreja da Graça de Évora e do túmulo de D. Afonso de Portugal, Cadernos de História da Arte, Lisboa, 1991.


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