«Seu pai, D. Jerónimo Coutinho - nome próprio igual ao do neto mais velho -, não usara titulo
nobiliárquico, mas desempenhara altas funções políticas, pois fora membro do Conselho de Estado
e Presidente da Mesa do Desembargo do Paço, tendo voz no despacho dos governadores do reino, no
tempo de Filipe III. É possível que desde criança ouvisse o pai desabafar, portas a dentro da
sua nobre moradia, queixas contra as injustiças feitas aos Portugueses pelo soberano estrangeiro
a quem servia.
Segunda esposa de D. Luís de Ataíde, 5º Conde de Atouguia, fora habitar uma residência senhorial
em pleno coração do burgo, não longe da igreja de São Domingos, e, portanto, vizinha do palácio
dos Almadas, onde se forjaram os planos dos conjurados. Mãe de cinco filhos - um dos quais, D.
João, morto na primeira infância -, D. Filipa enviuvou em plena mocidade. Viu-se chefe de uma
família honrada por uma herança de lealdade ao Rei e de dedicação à Pátria. Seu pai faleceu dez
anos antes da Feliz Aclamação. Os dois filhos varões, D. Jerónimo de Ataíde e D. Francisco
Coutinho, foram crescendo sob a tutela branda, mas inflexivelmente rigorosa em questões de
pundonor, de sua mãe, profunda conhecedora do que todos deviam ao seu impoluto nome. Desde
crianças, a todo o momento ouviriam falar das amarguras de outra mãe, a Pátria, esgotada pela
insaciável sede de ouro e de vidas, que exigiam as guerras de Espanha. Sabiam que as mais bravas
espadas portuguesas estavam sujeitas, de um momento para o outro, a cruzarem-se com as de
inimigos da Casa de Áustria. Não podiam ter ilusões a respeito da sorte que os esperava: um dia,
chegaria a sua vez de arriscar a vida por uma causa que nada interessava à missão histórica de
Portugal.
Quando, em 1636, a Vice-Rainha Margarida de Mântua, com o seu conselheiro Marquês de Puebla,
veio instalar-se no Paço da Ribeira, Miguel de Vasconcelos, o odiado Secretário de Estado,
começou a apertar desmedidamente o garrote do fisco, da exigência de tributos, sob o qual o
usurpado Reino econòmicamente agonizava. Sabe-se lá quantas privações de bons mestres, de
bons livros, de confortos materiais e morais de todo o género, se amalgamaram nos alicerces
onde assentou a revolta dos fidalgos, em 1640?!... Sabe-se lá se estes Atouguias também não
sentiriam ferver-lhes o sangue mais tumultuosamente quando a cobrança dos dízimos vinha
lembrar-lhes como econòmicamente se esgota uma nação em favor do erário do vizinho?! ...
A mãe e as duas irmãs - D. Luísa, futura Condessa de Penaguião, que viveu mais de oitenta
anos e foi tão entendida nas letras humanas como em questões de protocolo, e D. Maria, morta
na primavera da vida - rezavam incansàvelmente, na esperança de um bem que as espadas deles
tinham de conquistar...
De vez em quando, no palácio dos Atouguias apareceria parente ou amigo a contar a D. Filipa e
à sua ninhada algum bom dito, revelador de que andava na forja algo de muito grave para a vida
da Pátria... Que D. João, Duque de Bragança, estando a comer no Colégio dos jesuítas, em Évora,
se enfadara um pouco por só lhe servirem peixe, mas que logo um padre da casa observara,
sorridente, sibilino, serem os jejuns "vésperas de grandes festas"... Que, na Sé da mesma
cidade alentejana, um padre, pregando na presença do Duque, aludira, entre reticências e
subentendidos, ao desejo de ver D. João com uma coroa... de glória. E assim, rindo com estas
e outras, iam deixando os Jovens Atouguias que o tempo trabalhasse em favor de Portugal
dando-lhes arcabouço de homens, desenvoltura e forças para destramente manejarem uma espada.
Também ao seu palácio chegaria o eco das sucessivas explosões do ódio popular contra a pressão
fiscal do governo filipino, desde o Motim das Maçarocas, no Porto, até, quase dez anos
depois, o do Manuelinho de Évora, não esquecendo, no meio tempo, as desordens de Santarém de
1629.
Aparentados com tanta nobreza do Reino, devem ter sido dos primeiros a saber da reacção
provocada pela iniciativa de fazer tábua rasa do castelo de esperanças e ilusões - erguido
sobre a palavra de Filipe II, nas cortes de Tomar -, reacção que se acentuou logo após o
instante em que o Conde-Duque de Olivares declara a numeroso grupo de portugueses de elevada
categoria, chamados a Madrid sob o pretexto de uma conferência a respeito da reforma
administrativa do Reino, que Portugal deixaria de ser um Estado distinto de Castela, para se
considerar apenas uma província da grande monarquia filipina. Dirigida pelo Conde de
Cantanhede, D. António Luís de Meneses, a nobreza de Portugal toma então decididas
providências para sacudir o jugo, agora francamente aviltante. O Conde é desterrado, mas
o propósito permanece.
Segue-se o período das tentativas para arrancar ao Duque de Bragança a necessária licença de
o aclamarem rei. A sua prudente reserva, mais tarde bem qualificada de inteligentíssima e
providencial, não basta para arrefecer os ânimos..
Quando o vêem prestar as suas homenagens à Vice-Rainha, talvez alguns dos mais apressados
tivessem um instante de abatimento. Mas o "cerco ao Rei"... futuro aperta-se, e, perante a
certeza de que o esperam mil perigos bem menos honrosos do que morrer pela liberdade da
Pátria; perante a insistência de parentes e amigos, o avisado conselho da esposa e a ameaça
de se proclamar a república em Portugal, por não haver quem ouse empunhar o cetro; perante,
acima de tudo, a sua consciência de patriota e o apelo dos seus mortos, espoliados da
realeza pela força brutal das armas, D. João cede. Os conjurados já têm o chefe que
pretendiam, a conjura já tem o seu cartaz de legalidade e de direito, se um movimento
libertador de pressão aviltante precisasse de invocar razões superiores às que a simples
dignidade impõe..
Atribuem-se a Jorge de Melo e a seu irmão D. Francisco de Melo, monteiro-mor do Reino, os
primeiros passos no caminho redentor, o primeiro esboço do plano que podia, num golpe de
coragem e de sorte, pôr fim ao domínio estrangeiro. Começam, então, a espalhar-se os
convites para a patriótica "função", alguns expedidos para fora da capital. E, segundo
parece apurado, foi no palácio dos Melos, para os longes de Xabregas, que se efectuaram
as primeiras reuniões, onde compareceram, de certeza, figuras prestigiosas da nobreza,
como D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada e D. António de Mascarenhas...
Não cedeu logo D. João, como é sabido, aos primeiros pedidos para chefiar o movimento
que lhe foram feitos por Pedro de Mendonça, alcaide-mor de Mourão, emissário dos primeiros
conjurados. Mas as suas hesitações permitiram não precipitar demasiado os acontecimentos e
ir pondo alguns trunfos do lado da Aventura.
Certamente por conveniência de local, o palácio de D. Antão de Almada, no centro da cidade,
passou a ser o escolhido para as reuniões dos conjurados, já muito mais numerosos. Num
pavilhão do jardim, para onde era fácil entrar utilizando uma pequena porta que dava para
uma ruazinha pouco frequentada, junto ao muro do convento da Encarnação, havia lugar para a
fina flor da nobreza de Portugal discutir sobre a melhor maneira de "ir ali abaixo, à sala
real dos tudescos, e, num instante, tirar um rei e pôr outro". É que já se assentara na
conveniência de um golpe directo, vibrado no orgulho filipino, em Portugal representado pela
altiva Duquesa de Mântua...
Mais valia abater a soberba castelhana na pessoa da Vice-Rainha do que no ataque ao Castelo
de S. Jorge, onde a defesa seria relativamente fácil.
Cada um dos conjurados teve tempo para estudar o seu papel no momento decisivo, porque a
cada um foi indicado o que lhe competia fazer. Sabia-se que D. António Telo "executaria" o
traidor Miguel de Vasconcelos. Descontando pequena margem para o imprevisto, a tarefa de
cada qual foi distribuída e aceite sem discussão.
Qual a missão dos dois jovens Atouguias, dos filhos de D. Filipa de Vilhena? Nada mais,
nada menos do que fazer parte do pequeno grupo que devia isolar a Duquesa de Mântua, não
lhe permitindo comunicar com as forças castelhanas de que dispunha. Por outras palavras:
apesar de serem dos mais novos, ninguém lhes negara lugar honroso na acção mais arriscada,
- a da investida contra o Paço real, onde a guarda dos tudescos decerto procuraria defender
a Vice-Rainha. Que a mãe soube do perigo a que iam aventurar-se, há certeza documentada
pelo testemunho de autores coevos. E da maneira como se comportou, também não falta a mais
segura informação. O caso deu que falar, mesmo no tempo em que ocorreu. Passou à História
, apregoado pela musa vagarosa de um épico sem grande cotação, pela grandiloquência de um
príncipe de oradores, pelas vozes apagadas de vários autores obscuros. No poema Lusitânia
Restaurada, de Vicente de Gusmão Soares, encontra-se clara menção do facto:
No verdadeiro amor da Pátria acesa,
A ilustre mãe do Conde de Atouguia
Os filhos com a própria mão armara
E para a acção, que sabe, os exortara.
Num livro de estirado título – Manifesto do Reino de Portugal no qual se declara o direito,
as causas e o modo que teve para eximir-se da obediência de El-Rei de Castela, e tomar a voz
do Sereníssimo D. João, IV do nome e XVIII entre os Reis verdadeiros deste Reino –, lá vem
clara alusão ao belo rasgo de D. Filipa, na madrugada de 1 de Dezembro de 1640: "E para que
não fosse a glória toda do sexo varonil, houve alguma ilustríssima matrona que, na manhã deste
sucesso, ajudou, por suas mãos, a armar os filhos..."
Os testemunhos, acompanhados de intermináveis encómios, não escasseiam.
Não há dúvida de que o espectaculoso episódio, revelador do mais nobre civismo, ocorrido no
palácio dos Atouguias, teve enorme repercussão nos salões e no comentário admirativo da
arraia-miúda. Não houve, decerto, quem se desinteressasse da sobre-humana coragem daquela mãe
cujas mãos não tremiam quando afivelavam os cinturões de onde pendiam as espadas que seus
filhos iam desembainhar em obediência à mais honrosa intimativa. O sublime rasgo de abnegação
maternal – dois séculos mais tarde imortalizado por Almeida Garrett num drama histórico – como
que pincelou de clássica beleza e grandiosidade o movimentado cenário da Restauração. Nem mesmo
o colorido romântico de que Garrett reveste a mãe dos Atouguias, pondo-a a declamar tiradas
épicas perante numerosa assistência, como que expressamente reunida para a ver "representar" a
cena das espadas, consegue apagar a visão grandiosa, mas de sóbria e modesta compostura, desta
insigne matrona por quem as grandes angústias – como o provou por ocasião de perder uma sua
filha, D. Maria, flor de bondade e graça, morta em plena juventude – são estòicamente
suportadas com a mais cristã resignação.
Houve quem discutisse os motivos por que D. Filipa de Vilhena conseguiu maior favor da História,
nunca esquecida do seu nome, do que outra dona do seu tempo, a já citada D. Mariana de Lencastre,
cuja dedicação à causa da Pátria não foi menor, pois também impeliu para a luta seus dois filhos,
Fernão Teles e António Teles da Silva, e, no seu palácio à Mouraria, também por sua mão os armou,
na manhã de 1 de Dezembro. Seria porque D. Filipa de Vilhena inspirou o popularizado drama de
Garrett, que tem o seu nome? Seria porque sobreviveu oito anos a D. Mariana e obteve altos cargos
palacianos, como o de camareira-mor e aia do Príncipe que veio a ser o triste Rei D. Afonso VI?
Seria porque um dos seus filhos, D. Jerónimo Coutinho, subiu muito alto em dignidades, chegando a
capitão-general do Brasil?... O erudito Conde de Sabugosa deu-se ao cuidado de estudar o carácter
das duas heróicas mães: uma, D. Filipa, de impressionante e majestoso porte moral e físico,
arrastando, com igual imponência, a sua reputação de patriota mais do que abnegada e a cauda do
seu solene vestido de camareira-mor; a outra, apagada na penumbra do seu ideal sebastianista,
deleitando-se mais entre visões proféticas geradas pelo seu impenitente misticismo do que entre
galas mundanas, mais "caseira", mais esquecida, talvez, da sua sublime coragem no lance decisivo.
Pondo em contraste estes dois perfis morais, fácil é concluir quantas probabilidades a seu favor,
como "heroína representativa", teria a Condessa de Atouguia.
Seja como for, nem uma nem outra encontrariam grande razão para se queixar da injustiça por parte
da História e dos vindouros. Pode dizer-se que qualquer delas é mais lembrada do que os próprios
filhos, cuja iniciativa pessoal, no momento libertador, não se distingue nìtidamente. Sabe-se que
os dois Teles da Silva, os filhos de D. Mariana de Lencastre, entraram, com D. Miguel de Almeida,
na sala da Galé, quando a Vice-Rainha, entre criadas e cuvilheiras, procurava inteirar-se dos
acontecimentos e acusava os Portugueses de faltarem a promessas que nunca saíram do coração: -
Que es esto, portugueses? Adó está vuestra fidelidad? - E também se sabe que os Atouguias
andaram, com outros, percorrendo as salas à procura de Miguel de Vasconcelos.
Tudo correu mais depressa do que podia esperar a ansiosa impaciência de tantas mães, esposas e
filhas que tinham ficado a orar pelo êxito da arriscadíssima empresa. Desde o instante em que,
no Terreiro do Paço, bateram as portinholas dos coches e berlindas onde os fidalgos vinham, até
àquela em que D. Miguel de Almeida, deixando o vento matinal despentear as suas longas e bem
cuidadas barbas brancas, soltou, de uma varanda, o brado maravilhoso: - "Liberdade! Liberdade!
Viva El-Rei D. João IV!" - poucos minutos decorreram. Por feliz acaso ou premeditadamente,
deitaram-se por terra os suportes das alabardas dos tudescos, maneira fácil de fazer com que
estes se vissem embaraçados para ràpidamente oferecer uma primeira resistência. As escadarias do
Paço sobem-se em tropel, cada qual só desejoso de jogar a sua cartada pessoal com a sorte.
E, enquanto o velho D. Miguel grita, à janela, para depressa associar o povo à façanha que, de
futuro, tanto sangue lhe exigiria, um grupo fica-se a dominar, às portas do Paço, a guarda
espanhola, enquanto outro procura o odiado Secretário de Estado. Durante a caminhada de roldão,
pelas salas, ainda uma ou outra discordância, aliás corajosa, surge, e a História registou os
nomes de três ou quatro portugueses, funcionários palacianos, que pagaram com ferimentos, talvez
mortais, não tanto o receberem soldada do usurpador – o que seria injusto, porquanto milhares de
compatriotas nisso os imitavam – como a atrofia do instinto patriótico, a cegueira moral que os
não deixou ver, acima dos interesses de momento, a bandeira triunfante de um Portugal restituído
à sua grandeza soberana."»