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A História do Marquês de Pombal
(II)
Em 1943 o SPN - Serviço de Propaganda Nacional editou a colecção Pátria, dedicada a temas da História de Portugal. O volume trinta e nove dessa colecção foi dedicado à figura e obra do marquês de Pombal. Trata-se de um texto típico do estilo da História durante o período do Estado Novo caracterizado pela exaltação dos feitos e dos heróis da história portuguesa, apresentado num estilo muito romanceado e simples, acessível e dirigido ao grande público.

«No dia 1 de Novembro daquele ano de l755, a terra começou a tremer em Lisboa. Estavam as ruas cheias de gente. Era o dia de Todos os Santos e as igrejas estavam apinhadas e muitas pessoas iam a caminho delas ou de lá voltavam. O dia estava bonito, cheio de sol. Aí por volta das nove horas e meia sentiram-se os primeiros abalos. Eram grandes safanões que vinham de baixo para cima e depois de norte para sul. E isto durou sete minutos. As casas começaram a caír. Abriam fendas, estalavam, e por fim desmoronavam-se com grande ruído. No chão abriam-se gretas largas e saíam fumos de enxôfre. Com estes fumos e a poeirada das derrocadas, tudo escureceu. Pelas praças e ruas da cidade o povo, doido de terror, corria desordenadamente aos gritos, sem saber o que fazia.
- Jesus! Nossa Senhora! Misericórdia! - cuidavam que era o fim do mundo.
E as casas continuavam a caír; as luzes acesas nas igrejas e nas casas onde havia lume nas cosinhas, iam pegando fogo às traves e tábuas que lhes caíam por cima. No susto e aflição em que todos andavam, ninguém pensava em apagar os incêndios. Uns fugiam desvairados sem saber para onde, outros com o sentido de salvar o que tinham ou de acudir aos que tinham ficado debaixo dos escombros, tornavam a entrar nas casas que se derrocavam e os sepultavam.
Abriram-se as prisões para salvar os presos. Homens criminosos e do pior que havia espalharam-se à solta pela cidade, como feras, a roubar, a matar, a fazer ainda pior. Não podia haver desgraça nem horror maior. Mas esta calamidade cresceu ainda mais. Como se não bastasse o terramoto e o fogo, o mar também acudiu a ajudar naquela destruição medonha.
Pelas praias duma banda e de outra da entrada do Tejo, o mar de repente recuou de modo espantoso e deixou o fundo à vela e, tendo recuado assim, encapelou-se numa muralha de água altíssima que se atirou com tôda a fôrça sôbre a costa. Assim foram engolidas por aquela enorme montanha de água povoações inteiras da costa e tanta e tanta gente desapareceu para sempre. E o mar, não contente ainda, arremessou pela embocadura do Tejo dentro as suas ondas furiosas e altas como altos montes. Assim veio aquela espantosa muralha de água pelo Tejo acima, arrasando tudo que encontrava e, quando chegou a Lisboa espalhou-se pelos bairros baixos com tal raiva e redemoínhos e sorvedoiros que só parecia querer mostrar a cólera de Deus contra os homens desta infeliz terra.
O horror do que se passou em Lisboa durante aquela catástrofe não se pode contar. A gente corria pelas ruas desvairada, os gritos de susto confundiam-se com os gemidos dos feridos e moribundos. Ninguém sabia onde estavam as pessoas que mais estimava. Uns morriam de mêdo, outros queimados pelo fogo devorador dos incêndios, outros esmagados pelos desmoronamentos, outros afogados e arrastados pelas ondas que alagavam uma parte da cidade.
Alguns que tentavam salvar das ruínas das suas casas alguns valores, encontravam-se com os ladrões que aproveitavam a confusão para roubar jóias, pratas, roupas no meio das habitações arruïnadas e que não hesitavam em matar quem os incomodasse.
Todos estes horrores levam tempo a contar. Levam muito mais tempo a contar do que levaram a destruir a cidade de Lisboa. Em breve deixou a terra de tremer; em breve se retiraram as águas do mar. Só no meio da fumarada dos incêndios, da poeirada dos desmoronamentos e dos fumos de enxôfre que saíam da terra, e que, todos juntos, escondiam a luz dos sol e faziam quási do dia noite, começou a pouco e pouco a ver-se a calamidade deixada por tantos desastres. Nunca se soube ao certo o número dos mortos, mas a gente daquele tempo calcula êsse número em mais de dezóito mil.
Começaram logo os socorros. Os religiosos de todos os conventos espalharam-se logo pela cidade acudindo aos feridos e ajudando os moribundos a bem morrer e principiando a cuidar de enterrar os mortos. Enterrar os mortos era coisa urgente. Tantos, tantos mortos! Se não se acudisse a êsse trabalho, os corpos apodrecidos poderiam infestar os ares e espalhar alguma peste. Nesses tristíssimos trabalhos é preciso não esquecer o que se deve à caridade dos frades e freiras e dos jesuítas que tantos esforços fizeram, sem descanso, para acudir a todos. Dia e noite labutavam, a salvar gente dos escombros, a levar para os conventos os que encontravam sem abrigo, a tratar dos feridos, a enterrar os mortos.
E os fidalgos? Que havia de ser de tantos desgraçados se não fôsse a ajuda dos fidalgos que encheram os seus palácios de gente que não tinha abrigo, que deram o trabalho dos seus braços e o dinheiro dos seus cofres para socorrer tanta desgraça. Os palácios e grandes casas dos fidalgos e os conventos que o terramoto não derrubou, nos altos de Lisboa e nos arredores, encheram-se de infelizes que ficaram sem abrigo. Pelos jardins e cêrcas das suas casas e conventos, armaram tendas e barracas para abrigar gente. E isto durou meses, e durante êsse tempo dos cofres dos fidalgos e dos conventos saía a sustentação de todos aquêles infelizes.
Já é tempo que o povo de Portugal saiba o que durante tanto tempo lhe quiseram esconder: que foram os frades e freiras e os fidalgos que lhe acudiram naquela grande aflição do terramoto de Lisboa de 1755; e se não fôsse essa gente, o marquês de Pombal pouco poderia ter feito.
Houve muita gente de boa vontade que andou a enterrar os mortos ajudando nesse grande trabalho os frades e padres de S. Vicente de Fora, de S. Bento da Saúde, de S, Francisco de Paula, os padres da Companhia de Jesus e muitos outros, e muitos fidalgos.
Improvisaram-se hospitais nas cêrcas dos conventos de S. Bento da Saúde, de S. Roque, nas casas de Dom Antão de Almada, nos celeiros do conde de Castelo Melhor e outros.
Onde o marquês de Pombal fêz bom trabalho foi na firmeza com que castigou os comerciantes que quiseram abusar das circunstâncias para aumentar os preços de tôdas as coisas, e também no cuidado que teve de mandar vir os géneros para alimentação da cidade, e na severidade com que mandou enforcar ràpidamente todos os patifes que andavam a roubar as igrejas e outras casas depois do terramoto. Sobretudo deve-se à sua boa cabeça a pressa e competência com que mandou reconstruir a cidade entregando essa tarefa a homens capazes. Assim se reconstruiu tôda a parte baixa da cidade conforme agora está com as ruas mais largas e tôdas alinhadas e as casas com as melhores condições higiénicas que então se conheciam.
Depois de muitos sustos e aflições o mestre Manuel e sua mulher tiveram a alegria de ver chegar ao Pôrto os seus dois filhos, José e Rita.
- Ai, minha rica mãi! - dizia a Rita agarrada à Maria - Pelo amor de Deus não me mande nunca mais para longe de si!
O José depois de abraçar os pais, sentou-se a um canto. muito triste. O Manuel e a Maria olhavam para os filhos com os olhos rasos de lágrimas. O José e a Rita não pareciam os mesmos. Magros, escanzelados, com os olhos espantados como se tivessem endoidecido.
- Fala, rapaz! - disse o mestre Manuel - Onde estavas tu quando tudo começou a esbarrondar-se? E por onde andaste? O que fizeste?
- Sei lá!... Parece que não me lembro de nada... Nada senão tudo a caír e gente a fugir e a gritar... E fogo por tôda a parte... E gente que corria para a praia para se livrar do fogo e aí vinha o mar furioso e engolia tudo... E mortos.., mortos... mortos por tôda a parte... e doentes e feridos a gemerem e a gritarem...
O José e a Rita caíram doentes. Os pais trabalhavam noite e dia para pagarem os remédios e o sustento dos filhos. Quando estes principiaram a melhorar, o Manuel voltou uma noite para casa e disse à mulher:
- Tenho andado a cismar numa coisa, Maria. O trabalho aqui é pouco agora. Todos os pedreiros e carpinteiros abalam para Lisboa, para as obras da cidade. Se a gente fôsse também? Eu sou um bom oficial do meu ofício e o nosso José trabalha de carpinteiro como qualquer outro.
A Maria olhou à volta de si. Viviam naquela casita desde que se tinham casado e a pouco e pouco lhe tinham dado o recheio à fôrça de muitos anos de trabalho.
Já não sei o que é melhor nem pior - disse a Maria. - Se fôsse antes dos barulhos, tirava-te essa ideia da cabeça porque quem me quisesse tirar daqui era como se me matasse. Agora ... Olha: nem móveis, nem loiças, nem roupas ... Tudo se foi. Paredes, bancos e enxergas e um pedaço de pão, com a ajuda de Deus, arranjaremos em qualquer parte. Faze lá o que entenderes, Manuel, tens melhor cabeça do que eu.
Abalaram para Lisboa todos quatro. O Manuel e o José arranjaram logo trabalho. Alugaram uma casita. A Maria e a Rita começaram a vender peixe e, como havia muitos operários na cidade por causa das obras, êste negócio era bom. Assim puderam comprar a pouco e pouco algum recheio de casa e viviam menos mal. Mas alegria, nenhum dêles a tinha. Não havia em Lisboa quem tivesse alegria. O marquês de Pombal não se cansava de perseguir os religiosos e os fidalgos; todos viviam a tremer, pensando quando chegaria a sua vez.
Á noitinha juntava-se a família à hora da ceia. Ali, de portas e janelas fechadas e falando em voz baixa, diziam entre si o que sabiam e o que pensa-vam. A Maria começava sempre por lhes recomendar:
- Cuidado! Falem baixinho. Está tudo cheio de traidores, de, espias. Por um sim ou por um não vai-se parar à cadeia e só de lá se sai para a fôrca, para o destêrro, ou para a Inquisição.
A Inquisição! - disse o José. - Dantes na Inquisição quem mandava eram os padres e só lá se julgavam os crimes contra a religião. Mas o marquês já lhe deitou a unha e quem manda agora lá é êle. Se apanham alguém a geito ferram com êles na Inquisição e com torturas fazem-nos denunciar seja lá quem fôr...
- O que a gente passa agora! Quando me lembro do tempo de el-rei Dom João V até me parece sonhar! - disse o mestre Manuel. - Deus tenha sua alma na glória, que foi um bom rei amigo do seu povo. Agora anda a gente aqui com mêdo uns dos outros e sem se atrever a fiar-se em ninguém. O povo de Portugal nunca se deixou governar por tiranos. O que o marquês quere é dar cabo da Igreja e dos fidalgos para ficar só êle a mandar.
Assim se passaram três anos depois do terramoto. E um dia o mestre Manuel e o José chegaram a casa para a ceia com uma notícia terrível.
- Quiseram matar el-rei! - disse o mestre Manuel.
- Isso pode lá ser! - respondeu a Maria. - O povo anda tão assustado que não faz senão inventar mentiras.
Mas era verdade; ou pelo menos era o que o marquês de Pombal fazia correr na cidade; e o caso contava-se assim: Voltava o rei na véspera para o palácio com um protegido seu chamado Pedro Teixeira que não prestava para nada, quando o duque de Aveiro e mais dois fidalgos tinham descarre-gado dois tiros contra a sege real. O cocheiro apressara os cavalos, mas mais adiante havia outra espera; mais dois, José Policarpo e António Álvares. Esses atiraram também e el-rei fôra ferido num braço. Esta foi a história que se contou e uns acreditaram e outros não acreditaram e levaram tudo à conta de mentiras do marquês que andava sempre a inventar intrigas para se ver livre dos fidalgos.
Quando ouviu falar em António Álvares, a Rita fêz-se branca como a cal da parede.
- Isso é mentira - disse ela. - O meu patrão é um bom homem e não ia assim dar tiros contra el-rei.
A Rita estivera mais de cinco anos em casa de António Álvares, a servir, antes do terramoto. Não voltara para lá por não querer deixar a mãi que precisava agora muito de quem a ajudasse; mas ia muitas vezes visitar os antigos patrões e a mulher de António Álvares era muito amiga dela.
- Ai, a minha rica senhora! - dizia a Rita a chorar.
Andava tudo cheio desta notícia. Não se falava noutra coisa, mas tudo em segrêdo que ninguém se atrevia a falar em voz alta. Ninguém viu el-rei ferido. 0 marquês não deixava ninguém chegar-se ao pé dêle, a não ser o médico e o tal Pedro Teixeira que não prestava para nada.
Isto foi no princípio de Setembro; mas só em meados de Dezembro apareceu um edital a dizer do atentado. E nesse mesmo dia se começaram a fazer prisões. Por ordem do marquês prenderam o marquês de Távora, o marquês de Alorna, o conde de Atouguia, o conde de Vila Nova, o conde da Ribeira Grande, o conde de Óbidos, muitos outros fidalgos, homens do povo, padres jesuítas.
Pessoas de valor que têm escrito a história do atentado contra el-rei Dom José, por mais que estudassem e procurassem nos arquivos daquele tempo, nunca encontraram nenhum testemunho da verdade dêsse crime. O marquês de Pombal era homem sem temor a Deus e que só se deixava guiar pela sua ambição. Durante os anos que andou no estranjeiro antes de ser ministro, fartou-se de aprender as ideias novas que por lá se levantavam já contra a Igreja. Não hesitou em inventar a história do atentado só pelo gôsto de satisfazer o ódio que tinha aos fidalgos mais chegados a el-rei é cuja influência temia que viesse algum dia a fazer-lhe sombra.
Todos os presos foram condenados, e os suplícios que lhes acabaram a vida foram tais que nem sabemos como hão-de ser contados. Mas o dever de quem conta a história, é dizer a verdade e estes livros são destinados ao povo de Portugal a quem compete saber a verdade e não andar enganado com mentiras.
As execuções foram feitas com grande espectáculo na Praça do Cais, em Belém, onde se erguera ao meio um grande e alto estrado para que o povo apinhado em volta pudesse ver bem os horrores que ali se iam passar.
Em cima do estrado estavam umas poucas de aspas, isto é, cruzes em formas de X a que chamam cruzes de Santo André onde os condenados se-riam amarrados, e machados, macetas, baraços e outros instrumentos de suplício.
A praça estava apinhada de gente. Chegou primeiro uma cadeirinha acom-panhada por dois padres. Dela se apeou a marquesa de Távora, senhora de cabelos já grisalhos. O algoz pegou-lhe na mão e deu com ela a volta ao estrado para que todos a vissem bem. Depois foi-lhe mostrar os instrumen-tos de suplício explicando-lhe como iam morrer o marido e os filhos. Sen-taram-na em seguida num banco e o algoz, de um golpe de machado, cortou-lhe a cabeça.
Foram depois chegando os outros condenados. Eram atados nas aspas, passavam-lhes um baraço ao pescoço e, ao mesmo tempo, com uma maceta pesada quebravam-lhes as canas das pernas e dos braços.
Quando se terminou esta medonha chacina, veio por fim António Álvares Ferreira que era guarda-roupa do duque de Aveiro. Esse devia ser queimado vivo. Mas depois de amarrado e do fogo ser ateado, como soprava vento rijo, o fumo e as chamas não o sufocaram logo e foi sendo queimado a pouco e pouco com sofrimentos que nem se podem contar.
E el-rei, persuadido de que o marquês fazia aquilo para castigo dos que tinham tentado matá-lo, quis dar-lhe um prémio e fê-lo conde de Oeiras e concedeu-lhe outras mercês!
Logo a seguir a estes suplícios da nobreza, o marquês começa a sua perseguição aos padres jesuítas que tantos e tão grandes serviços tinham prestado a Portugal. Mandou em Dezembro de 1758 cercar-lhes as casas, fazer-lhes buscas, sequestrar-lhes os bens, fechar-lhes as escolas e proibir-lhes as comunidades em Portugal, nas ilhas, em África, na Índia, na China, no Japão, no Brasil, por tôda a parte onde aquêles homens admiráveis tinham espalhado havia tanto tempo, com tanto trabalho e através de tantos perigos e constância, a doutrina de Cristo, e o respeito do nome português. E por fim, o marquês de Pombal expulsou de tôdas as terras portuguesas os padres da Companhia de Jesus e mandou queimar pela Inquisição, um pobre jesuíta de mais de setenta anos que jazia preso por êle numa masmorra, doente e quási doido à fôrca de sofrimentos, gasto por uma vida inteira de sacrifícios e de caridade no ultramar português!
Criou um sindicato de pesca em Vila Real de Santo António; e, como os pescadores de Monte Gordo não se mostrassem muito dispostos a mudar para Vila Real as suas residências, o marquês mandou largar fogo às suas casas e tôda a povoação de Monte Gordo ardeu, de modo que os pescadores tiveram que ir viver à fôrça para Vila Real.
Tendo conhecimento que alguns desertores tinham fugido para a Trafa-ria, o marquês mandou cercar a povoação por um cordão de tropas e lançar-lhe fogo. Os infelizes moradores corriam de um lado para o outro no meio das chamas, tentando salvar os seus doentes e as crianças. Muitos morreram. Alguns puderam escapar porque os soldados que formavam o cordão, cheios de dó, os deixavam fugir. Mas os que fugiam iam meio nus e tinham perdido tudo que possuíam neste mundo.
E é êste o homem que alguns historiadores quiseram levantar como um grande ministro e um grande homem de Estado digno do respeito e da gratidão do povo português!!
Fêz coisas bem feitas? Fêz algumas. Mas bem melhores coisas fizeram Dom João V e outros reis de Portugal. Das coisas boas que fêz, a maior parte tinham sido começadas por Dom João V.
É dêle a invenção de companhias para o comércio e indústrias. O que podia dar bom resultado noutros países, não servia entre nós porque não estávamos ainda refeitos de tantas desgraças passadas, nem educados para tais fins. O resultado era o abuso dos que mandavam nessas companhias e a miséria do povo que perdia a sua liberdade de trabalhar conforme gostava e entendia.
Mandou o marquês vir, gente competente de fora para ensinar indústrias em Portugal; deu subsídios a fábricas para se desenvolverem. Como acabou com as boas e tão numerosas escolas dos jesuítas, espalhadas por todo o reino e pelo ultramar, fundou outras a seu modo. As classes pobres ficaram sem ensino. Quando êle desapareceu, pouco se aproveitou da sua obra. Como se havia de aproveitar. As coisas feitas sem amor, sem coração, só ditadas pelo orgulho pelo ódio, são sempre plantas daninhas cujos frutos não prestam.
A administração do Estado era má. Não havia pontualidade nos paga-mentos. As tropas não eram pagas, devia-se sempre o pré dos soldados. Os ordenados dos criados do Paço não se pagavam; andavam todos quási sem se poderem agüentar e calados. Quem se queixasse ficava mal. Os operários do Arsenal ficavam meses sem receber um real. A esquadra compunha-se de doze navios que apodreciam no Tejo sem poderem servir de nada. Um ministro francês que estava então em Lisboa, escrevia estas linhas:
- Faz pena ver em tamanha decadência esta nação que num século de ignorância, se cobriu de glórias, abrindo aos outros povos da Europa caminhos até então desconhecidos.
E o tempo foi passando.
Num domingo de inverno mas muito cheio de sol, lá estava o mestre Manuel em casa com a mulher e os filhos e alguns vizinhos que tinham vindo saber notícias da Rita.
- Agora vai indo melhorzinha, graças a Deus - dizia a Maria. - Parece que desde que o marquês saíu de Lisboa já sem poder fazer mal a ninguém, voltaram-lhe as fôrças da saúde.
- Como foi o comêço desta doença da sua Rita? preguntou a irmã de urna vizinha que vivia na Outra Banda e viera naquele dia visitar a família.
- Ora o que havia de ser, senhora Rosária? - respondeu a Maria. - Foi sempre uma rapariga rija e saüdável. Não havia trabalho que lhe metesse mêdo. Mas quando foi aquêle inferno lá em Belém e a morte tão medonha daqueles fidalgos (Deus tenha suas almas, que nunca fizeram mal a ninguém) e que a minha Rita soube das aflições em que o senhor António Álvares acabou, tombou para a banda sem sentidos como um corpo morto e daí por diante nunca mais teve saúde nem alegria. Esteve a servir uns pou-cos de anos em casa dêle e tanto o senhor António Álvares como a mulher a estimavam muito. Criou uma tal paixão com aquela desgraça que durante dois anos esteve entre a vida e a morte e depois ficou como tonta, sempre a cismar, sentada num canto a falar sozinha e sem se querer mexer para coisíssima nenhuma. Muito devagarinho, hoje uma coisa, amanhã outra, lá tem ido melhorando. Mas melhoras deveras só desde o dia em que o maldito marquês foi desterrado para fora de Lisboa. Só dêsse dia em diante é que começou a ganhar amor ao trabalho e a dar atenção ao que a gente lhe diz.
- Dizem que a rainha senhora Dona Maria é de vontade firme - disse um vizinho. - Ainda bem. O marquês já abalou para Pombal e já não manda nada. O que êle precisava, sei eu.
- Tristes anos passamos, a minha família mais eu - disse o mestre Manuel. - Arruinados com os barulhos do Pôrto. Depois aqui a trabalhar no Arsenal com o meu filho meses e meses sem vermos um real de férias. Até fome passamos, louvado seja Deus! Mas isso ainda não era o pior. O pior era o mêdo em que a gente vivia, sempre à espera de ir dar com os ossos na prisão sem saber porquê...
Um outro vizinho, que era todo bem falante, disse assim:
- Tanto espalhafato, tanta mortandade, tanta desgraça que aquele marquês espalhou nesta terra.., e tudo para quê? Deu cabo de quantos fidalgos e quantos jesuítas pôde. É o que êle fêz. E para quê? Para ser só êle a governar. Mas nas aflições do povo quem nos acudia sempre? Eram os fidalgos, eram os conventos. Quem nos ensinava os filhos? Quem nos socorria nas más horas? Eram os jesuítas. Quem é que o maldito marquês ajudou e amparou? Ladrões e renegados que se encheram até rebentar.
- Cala a bôca, homem! - acudiu a mulher dêste vizinho. - Até te pode dar alguma coisa com essa raiva que tens.
- O que lá vai, lá vai - disse o mestre Manuel. - Deus dê saúde à nossa raínha que, pelos modos, vai remediar muitos males. Águas passadas não moem moinhos.
Dom José I não deixou senão filhas. Não teve nenhum filho. A princesa mais velha, subiu ao trono por morte de seu pai com o nome de Dona Maria I, no ano de 1777.
O marquês de Pombal, vendo que as coisas mudavam e receando que a nova rainha o mandasse embora, pediu a sua demissão e licença para ir viver nas suas terras de Pombal.
Dona Maria que era uma senhora muito boa e muito inteligente, disse que não queria começar o seu reinado com tantas lágrimas e dores como havia então entre os seus súbditos, e mandou soltar todos os presos que o marquês lá mandara fechar. Saíram das masmorras mais de oitocentos desgraçados. Mais de mil e seiscentos lá tinham morrido.
Muitos tinham entrado novos e robustos e saíram com cabelos brancos e a saúde perdida para sempre, tais eram os sofrimentos e os maus tratos.
Pouco depois as famílias dos condenados aos suplícios de Belém e os que saíram das prisões onde tinham entrado sem culpas, pediram a revisão dos seus processos e não descansaram enquanto lhes não foi feita justiça.
Tais eram as queixas que o marquês de Pombal que se fartara de instaurar processos, foi por sua vez levado aos tribunais. Teve que responder a vários interrogatórios severos, perdeu a cabeça, humilhou-se, pediu perdão à rainha com vergonhosas lamentações.
Estava velho e doente. A rainha, atendendo à sua idade avançada perdoou-lhe as penas corporais, mas desterrou-o para longe da côrte e obrigou-o a pagar o que devia ao Estado e a particulares. Estava quebrado o marquês e o seu orgulho. Pouco depois morreu em Pombal com oitenta e três anos e foi prestar contas a Deus.»